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Contrato (a tempo indeterminado)

27 Abril 2018 a 22 Junho 2018
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O Tempo parece hoje querer fugir-nos das mãos, de tal forma se tem comprimido. Até ao nível da instantaneidade. E, isso, obviamente, provoca alterações que interferem connosco. Tudo se tornou, de repente, efémero. As amizades quase virtuais, os contratos de trabalho a tempo certo...precários, as capacidades de parar, de reflectir, de pensar, relegadas para uma espécie de categoria obsolescente. Este pode ser um (entre muitos) retrato do nosso real. A exposição que agora se apresenta quer ter esse contacto íntimo com a realidade e, por isso mesmo, não abdica de a confrontar directamente. Não para fornecer respostas, antes para o questionar, da forma peculiar que a arte o sabe fazer. Entre a escultura povoada por imagens e as imagens (vídeo) povoadas por elementos escultóricos se fazem os trabalhos apresentados por Fernando José Pereira e Ângela Ferreira.

Ela (a exposição) nasce duma simples ideia. Um desejo de dar continuidade a afinidades que se marcam precisamente pelo contar do tempo lento, longo e calmo. Nasce de uma estranha confiança em empatias humanas, políticas, éticas e artísticas que perduram e subsistem à imposição do comprimir do tempo, às explosões de comunicação e à tirania da efemeridade. Nesta exposição pretendemos testar a validade desses critérios. Pretendemos testar se, ao partilharem um espaço museológico, as obras de arte são capazes de reflectir estes valores basilares que nós próprios quase esquecemos.

O esquecimento é, aliás, um sentir com o qual não queremos compactuar. As obras que compõem a exposição esforçam-se por resistir às consequências da desmemorização do nosso presente. Querem afirmar a sua vitalidade como testemunhos de um tempo que exige as dimensões próprias do Tempo, quer dizer, as camadas de significações que este potencia: o passado, o presente e o futuro e não só esse presente perpétuo em que parecemos estar enclausurados. Talvez por isso, são obras que são exigentes para com o seu público pois, mais que tudo, solicitam-no para serem vistas, sentidas, para serem reflectidas. Afinal, sem tempo não há reflexão e sem reflexão não poderá nunca existir arte.

São, também, obras desafiadoras das categorias disciplinares, representativas dessa espécie de fronteira porosa que permite as mais variadas interligações, sem receios e sem bloqueios. Livres para incorporar no seu fazer e no seu apresentar as contaminações que com muita satisfação aceitam e que, naturalmente, tornam suas por inclusão.

É, aliás, de inclusão que se constrói a exposição. Desde logo a partir da ideia de contrato – trazer junto, na sua etimologia – por um tempo indeterminado, mas, também, pela possibilidade de incluir no seu âmago um desejo de partilha que permita às obras presentes prolongarem-se já fora da sua espacialidade num tempo que lhes seja posterior. Nessa espécie de estranha ressonância que às vezes as obras são capazes de produzir nos espectadores que as fruem.

Pode ser.

 

Fernando José Pereira e Ângela Ferreira
Março 2018

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